
Um Toque: recarga ao segundo remate
Abril 8, 2007O Carlos era acólito. E penso que rumou mesmo a um Seminário – pelo menos até arranjar namorada; ou sem menos, que uma coisa não implica inteiramente a outra e na realidade nunca me inteirei sobre o assunto. Era meu colega de secretária numa ou duas aulas, já não recordo com acuidade. Era um tipo porreiro e esforçado – hoje, não sei, mas é provável que assim continue –, não me dava nada mal com ele. Tinha um problema qualquer com um dos dentes da frente, que convenientemente andava a tratar, e razão pela qual era insistentemente gozado pela classe alta da turma. Sim, falamos do abstracto, absurdo e muitas vezes aleatório conceito de popularidade, vilmente instaurado entre as gentes de pé para as borbulhas. Como quase sempre pertenci à classe média-alta, dei por mim várias vezes a sucumbir, nos termos descritos imediatamente acima, às tentações dos que ocupavam o topo da hierarquia. Não sei se me arrependo. Há que ter em atenção a conjuntura! Sei, isso sim, que a miudagem consegue ser brutalmente cruel consigo mesma.
Mas é de um dia chuvoso – ou pelo menos demasiado nebuloso – a mais nítida memória que possuo do Carlos. Precisamente nos campos de alcatrão, num jogo de futebol que já não sei por qual das mais rocambolescas razões era implicativo para o ego. A partida, lembro, não corria mal. Contudo, na equipa adversária, o Carlos estava a sair-se bem melhor que eu, julgo até que me havia ultrapassado e barrado passagem umas quantas vezes. Aqui, pertencíamos ambos à mesma classe – a média-baixa. Como não éramos grande coisa com a bola nos pés, servia-nos o dorso mais desenvolvido que os dos outros para a posição de defesa central que se furtava, não raras vezes, às suas estritas funções com bola – já que árbitro era também algo de muito abstracto. E, mais a mais, os tempos de glória a guarda-redes já haviam ficado no 6º ano: havia que a todo o custo afirmar a melhor condição em relação ao outro para poder entrar na equipa principal frente às equipas das restantes turmas. Achei solução: uma sumptuosa e brutal placagem que o pôs no chão, em dores, enquanto me afastava sem a mais curta lufada de ar – que o embate me havia apertado até onde podia os dois pulmões – mas em passo de corrida, orgulhosamente. O Carlos ficou a olhar-me com um ar incrédulo, de porquê interrogado. Exibi uma qualquer juba de conquista e mais não se falou no assunto.
Agora, por que me morreu o Carlos nos sonhos, quase uma década depois, não faço a mais pequena das ideias. Mas, confesso, nunca a morte, tão perto, me foi tão pacífica. Talvez me tenham perdoado.
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Hugo Torres




[...] Um toque: Publicado em Sugestão, Papel por Hugo Torres no Abril 9th, 2007 segundo remate (recarga). [...]
Bom, agora já temos a foto do tipo em questão aqui ao lado…