Havia tudo: motivação a rodos – fruto de uma rivalidade quase milenar e de palavras ácidas trocadas ao longo de meses -, qualidade apreciável, um entrosamento crescente, uma confiança galopante (à qual não será alheia a retumbante vitória no último jogo), um momento decisivo. Tudo menos aquilo que, neste torneio, tem recorrentemente vindo a faltar: precisão no remate, atenção nos momentos-chave – e, sobretudo, sorte. Ponderados os os adversários e pesadas as circunstâncias, o resultado não surpreende: um (exagerado) 8-1, resultado madrasto para Os Coxos e honroso para os Torpedo.
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O jogo começou bem para Os Coxos. Ainda antes da bola rolar no pavilhão, o grupo reuniu no centro do terreno, reviu considerações tácticas e, aspecto importante, não deu o grito (uma superstição lateral, talvez, mas a verdade é que, quando o terceiro lugar está ainda ao alcance, toda a ajuda é bem-vinda). Superstição ou não, a verdade é que, frente a uma equipa de qualidade superior, a turma de uma só perna surgiu em campo descomplexada e confiante, disfarçando as limitações e explorando as potencialidades. Mas vamos a factos.
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Logo no primeiro minuto Os Coxos fizeram tremer os Torpedos: jogada de contra-ataque do defesa Marcos Sabino culminada com remate defendido pelo guarda-redes Luís Miguel. Minuto seguinte, jogada idêntica e… Luís Miguel a salvar. A sorte, a azelhice, o guarda-redes adversário – sempre algo ou alguém a preservar o marcador em branco. E como então os valorosos coxos já mereciam o golo! Quem esperava uma equipa amedrontada, tímida e tremelicante, encontrou um grupo coeso na defesa, parcimonioso na posse de bola, rápido no contra-ataque e acutilante nos despiques individuais; o que, em linguagem popular, quer dizer: autocarro à frente da baliza e correria para a frente. Simples; mas parecia resultar.
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Mas a sorte, já referimos, foi madrasta. E em poucos minutos o castelo de cartas Coxeano – que com o cuspo do empenho e da união foi consolidado – ruiu. Erros individuais, todos, sem excepção. No primeiro, um passe transviado de Marcos Sabino deu o golo a Pelayo; no segundo, uma má reposição de bola do guarda-redes permitiu a Del Neri isolar-se na lista dos melhores marcadores; e, no terceiro, foi um salto a destempo de Phillipe Vieira que deixou um avançado contrário a dois metros do golo. Até ao intervalo as oportunidades de golo Coxeanas sucederam-se – mas não há coragem, garbo ou valentia que resistam a uma eficácia quase total (do adversário). O desânimo instalou-se.
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Veio o intervalo e a terapia de grupo. O mister levou o grupo ao divã, os erros foram analisados e a catarse colectiva reanimou os craques Coxeanos. Ao entrar em campo, a má sorte da primeira metade estava esquecida e a turma de uma só perna preparada para lutar – se não pela vitória, pelo menos para a suavização da derrota.
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Mas o dia não era d’Os Coxos. A valorosa equipa levava com frequência o perigo à equipa adversária e, num lance em que levou a bola a embater no poste, o adversário apanhou a defesa em contrapé e… golo. 4-0, desanimador, desolador, entristecedor, aterrador, etc., etc., etc.
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Foi por esta altura que as coisas se decidiram. «Tricky», num lance de fúria, marcou golo. A equipa motivou-se. Galvanizou-se. Atacou. Beja, portentoso – que grande jogo, de raiva e de fúria, fez ele! -, passou por Alex e, cara-a-cara com Luís Miguel, estourou para grande defesa do guarda-redes dos Torpedos. «A bola não quer entrar!», confessaria, mais tarde, a contratação Coxeana, já prevendo o que viria a seguir: jogada de insistência e… golo dos Torpedos. A bola, por certo, estava comprada.
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O resto do jogo não tem história – ou, se tem, é monótona; com a equipa partida e os jogadores cansados, as substituições (algumas pouco pensadas) a sucederem-se, a resignação a instalar-se e o cansaço a fazer-se notar, os Torpedos chegaram sem dificuldade ao 8-1, com 3 golos marcados em pouco menos de 8 minutos. Um castigo demasiado duro para uma equipa que fez certamente a a sua melhor exibição da Liga Interna de CS. A última frase desta crónica devemo-la a Hélder Beja, que resumiu a prestação da equipa na Liga em geral, e neste jogo em particular: «A bola não entrar; a gente chuta, remata, estoira; e ela não entra! É incrível!».
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Alberto Teixeira: 12 – Depois de uma fase conturbada, Teixeira controlou os nervos e, num jogo complicado, esteve insuperável nos remates de longe, capítulo em que costuma revelar alguma fragilidade. A apontar, apenas as más reposições de bola, que deram dois golos ao adversário.
Carlos «Tricky» Ferreira: 12 – Um golo para a contabilidade. Rigor táctico na cobertura das costas dos avançados e uma apreciável capacidade de movimentação no ataque. Tem jogado lesionado – e isso nota-se – mas o seu labor é inestimável.
Marcos Sabino: 13 – Como defesa, Marcos é difícil de bater. Aliás, durante os minutos que esteve em campo conseguiu a proeza de «secar» Del Neri; esteve atento no corte e raçudo nas descidas. Desta vez, não conseguiu facturar mas, ainda assim, criou em variados lances momentos de grande perigo. A nota só não é mais alta porque ficou mal na fotografia do primeiro golo.
Phillipe Vieira: 9 – Pouco tempo de jogo; jogou mais nos últimos dez minutos, em fase de pleno desnorte. Borrou a pintura no terceiro golo, quando saltou fora de tempo. De resto, cumpriu atrás mas não causou mossa na frente. De qualquer forma, maior rigor táctico do que nos anteriores jogos.
Hélder Beja: 16 – Jogo grandioso. De início, foi um lutador que dinamizou a equipa e que a impulsionou para a frente; quando esta ameaçava desmoralizar com o primeiro golo, foi um capitão que soube segurar a bola e compassar o jogo, puxando pelos colegas; quando esta entrou na mó de cima com o golo de «Tricky», foi um guerreiro que levou a bola para cima do adversário e galvanizou os companheiros. Não merecia tamanha falta de sorte.
Daniel: 11 - Não está em forma, nota-se, mas soube tapar os espaços na defesa e lançar alguns contra-ataques, com fintas bem executadas. O que, contudo, não serve para apagar um elevado número de bolas perdidas e de remates pouco eficazes. O poder de explosão parece ter desaparecido.
Rui Rocha: 9 – Pouco aguerrido, não consegue pressionar na frente, o que, contra equipas deste calibre, se pode revelar fatal. Não comprometeu com maus passes (o que denota alguma evolução) mas também não fez a diferença. Falta-lhe ritmo e confiança para jogar a este nível – algo que o tempo, a experiência e um treino físico cuidadosamente aplicado poderão melhorar.
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Pedro Romano